Mais de 400 apps e sites interligados foram usados para ocultar ferramentas de criação de imagens e vídeos explícitos gerados por IA, revelou uma investigação da WIRED. Os apps muitas vezes se apresentavam como serviços comuns, como criadores de retratos de animais de estimação e professores de idiomas. Em determinadas condições, porém, podiam carregar uma interface oculta na qual os usuários enviavam fotos para inserir pessoas em cenas sexuais.
A interface incluía modelos com cenários como “estupro no quarto” e “ameaça com faca”. A WIRED descobriu que os apps eram promovidos por anúncios explícitos no Facebook e no Instagram, às vezes com links diretos para as lojas de apps da Apple ou do Google. Os anúncios e apps fazem parte de um padrão mais amplo: reportagens anteriores da WIRED encontraram anúncios da Meta com material de abuso sexual infantil gerado por IA, incluindo imagens de crianças reais.
Como os apps escondiam sua finalidade?
Segundo pesquisadores, os apps verificavam informações como a localização e o idioma do usuário antes de decidir qual versão exibir. Clicar em um anúncio associado da Meta parece ser um dos gatilhos para carregar a versão explícita. O pesquisador de segurança Maël Le Touz, da Infoblox, identificou quase 500 domínios interligados, muitos executando o mesmo código e fazendo referência uns aos outros.
De acordo com a análise do pesquisador Paul Bouchaud, os apps parecem ter começado a surgir no fim de 2025. Em determinado momento, cerca de 30 eram registrados por semana, e 27 estavam disponíveis no Google Play em setembro. A pesquisa dele constatou que os apps somavam mais de 350.000 downloads. Um deles, o DiffAI, tinha mais de 100.000 downloads na Play Store antes de o Google removê-lo, pouco antes de a WIRED entrar em contato com a empresa.
O que as plataformas fizeram?
A Apple removeu 19 apps, incluindo o app de retratos de animais Viefur, depois que a WIRED compartilhou suas descobertas. O porta-voz da Apple, Adam Dema, disse que os desenvolvedores alteraram os sites carregados pelos apps depois da aprovação, substituindo conteúdo aprovado por pornografia. A Apple afirma ter suspendido dezenas de milhares de apps no último ano por táticas semelhantes de “isca e troca”. O Google havia removido a maioria dos apps antes de a WIRED entrar em contato, mas não respondeu ao pedido de comentário da publicação.
Pesquisadores disseram que a operação parecia envolver desenvolvedores chineses. A WIRED encontrou vínculos com a KeLing Technology Limited, registrada em Hong Kong, incluindo dados de contato e conexões entre sites, mas a empresa não respondeu aos pedidos de comentário. A Meta disse que havia proibido a KeLing de anunciar em 2025 e, mais tarde, tomou medidas contra contas, páginas e anúncios associados aos domínios. Segundo a WIRED, anúncios e apps semelhantes ainda apareciam quando a investigação foi concluída.
Por que importa
Quem instala por meio de um anúncio um app com aparência comum pode encontrar ferramentas ocultas que transformam fotos enviadas em deepfakes explícitos. A investigação registra remoções e medidas de fiscalização, mas também afirma que anúncios e apps semelhantes ainda apareciam quando a reportagem foi concluída; ela não determina quantos usuários chegaram a encontrar a interface oculta.